Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

• My Life As Myself •

The creator of this blog is currently trying to be a proper adult. Here, they try to figure out life through photography, writing, music and the occasional existential crisis. Enjoy.

• My Life As Myself •

The creator of this blog is currently trying to be a proper adult. Here, they try to figure out life through photography, writing, music and the occasional existential crisis. Enjoy.

Oceano Pacífico (Rascunhos de Antigamente)

Uma lágrima abre caminho por entre a sua face redonda. Nada que alguém pudesse dizer a faria mudar de ideias.

Estava só mas contente, uma felicidade depressiva. Era como se pudesse ver mais claramente na escuridão.

Tão diferente do resto do mundo, aquela menina. Muito pouca gente poderia entender tais sentimentos. A sensação de saber o que os outros não sabem, e de ter a curiosidade de descobrir o desconhecido.

Poderia ter ficado a olhar as estrelas toda a noite, contando-as, inventando constelações cujos nomes eram um segredo só seu. E olhava as menos brilhantes, as quais faziam os seus grandes olhos chorar de exaustão.

Mas alguém tão estranho não poderia agradar a um mundo que prezava a vulgaridade, por isso ela tentou integrar-se. E que difícil foi esta tarefa, a de se igualar aos seus pares. A pequena sonhadora teve de aprender a sonhar mais baixo; a diminuir o seu libertador grito para um inaudível sussurro. 

Com cada passo que retrocedia, sentia-se a diminuir. Era quase absurdo, uma jovem de altura significante passar despercebida numa multidão. E o que poderia uma simples jovem fazer se não chorar as suas mágoas e tristezas? Certamente ninguém percebia o que se estava a passar... Pensavam que se tinha tornado mais pacata, que preferia o conforto da sua casa, nada mais.

E mesmo a moça destroçada não se apercebia dos seus males. Era uma vida aborrecida e desinteressante que esta levava, imaginava ela. Nada para contar, pois é claro, os eventos e memórias trágicas eram enterrados cada vez mais fundo para dar lugar aos comentários dolorosos.

Pequenas partes da sua velha vida ainda prevaleciam. Ainda dava por si a cantar uma canção que ia inventando, a rabiscar um velho pedaço de papel enquanto tentava ouvir os professores na aula; a dançar sozinha no seu quarto. Tudo isto era uma amostra do ser que uma vez foi, mas eram atividades para serem praticadas escondidas, coisas que era necessário esconder do resto do mundo, nem ela sabia bem o porquê. Ninguém lhe disse que assim tinha de ser feito, foi uma regra que ela ia impondo a si própria, e assim o fez ao longo dos tempos.

Sentia-se confortável assim, o mais que podia, de qualquer forma. Nunca nada parecia apropriado ou como deve ser, talvez o fosse se ela própria se assemelhasse mais aos outros, especialmente às outras raparigas da sua idade.

A moça chegou mesmo a pensar que era bizarro, até injusto, que ser como elas era considerado o padrão do aceitável, e ser como ela era não. Mas o seu cérebro, tão arranhado, tanto pela sociedade, como por si própria, não a deixava estar em paz.

Tempos difíceis eram aqueles - o céu cinzento tornava-se mais parecido com a cor do ébano a cada dia que se passava, e sentir alguma coisa era cada vez mais difícil. Havia dias em que passava por um animal violento e imaginava que se este lhe mordesse a sua expressão não teria mudado; na passadeira, se um carro a atingisse, não teria a mínima importância.

O estado de dormência era o mais terrível de todos. Muitas pessoas, as que não padecem desta aflição, pensam que as lágrimas de tristeza são o pior. Ela poderia tê-las desmentido, o chorar sem porquê venceria a disputa dentre as razões para esta ação.

E um dia, sem mais nem menos, alguém mergulhou na escuridão a seu próprio risco, escrevendo a sua última cena do seu ato final. Ela não teve de ver o desenrolar desta peça, já há muito que tinha deixado de a ver. Apenas pequenos pedaços destorcidos, nada mais. Mas quando acabou, ninguém lhe olhou nos olhos e explicou o enredo. Parecia que toda a gente tentava fingir que estava tudo bem. E não era a primeira vez, tantas outras peças ficaram por desvendar, era doloroso este não saber.

Mais um baú por fechar, outro buraco onde o enterrar.

Tudo se lhe fazia ver insuportável. Adormecer era o verdadeiro pesadelo, e o tocar do despertador de manhã fazia-a soluçar de desespero. O pânico era o seu maior demónio.

E tudo se agravava, até que um dia ela se encontra entre o cenário da peça que acabou às mãos do seu protagonista. E a garota banhada na sua solidão decide seguir os paços do artista que nunca se mostrou exemplo a admirar. Não eram novos estes pensamentos, todas as noites eram estes que a assombravam, que a faziam desenterrar certas páginas há muito rasgadas. Só faltava um passo, mais um passo em direção ao oceano e poderia ter-se afogado por completo. Mas entre os soluços disse ao céu que não. Gritou às nuvens que tinha de ser mais forte do que o ator que nada teve para mostrar no final – não era o seu destino.

Relembrava-se agora do que lhe esperava. E não sabia se eram estudos, um amor, um destino...apenas que era algo mais

 

 

 

 

 Love & Shuffle,

TheBassGirl-182